sexta-feira, 16 de agosto de 2013

LEVANTAR ÂNCORAS





Ao largo, o barquinho permanece ancorado em águas calmas. Praticamente imóvel, soçobrando ao sabor do balanço indolente do mar.


Parece aguardar a definição dos acontecimentos, a confecção da carta de navegação definindo sua nova missão no oceano da vida.


Ao longe, em terra firme, as luzes da cidade cintilam e piscam, engano produzido pela distância dos olhos humanos à luminosidade das lâmpadas que produzem tal efeito.


Pisca-pisca que define bem a rotina que vivemos nesse universo. Os momentos felizes reluzem numa claridade brilhante, querendo mostrar a todos os sorrisos de quem os vive. E a escuridão da infelicidade esconde os semblantes fechados de quem não tem motivos para mostrá-lo.


Cidade em cujo ancoradouro o barquinho permaneceu durante bons anos, partilhando mais luz que névoa, mais sol que chuva, bem mais sorrisos abertos que rostos vincados por músculos retesados pela contrariedade.


Mas o copo, embora com água milimetricamente colocada na metade de seu interior, é analisado como meio vazio. Por mais que se explique que está meio cheio...Não adianta...Questão de ponto de vista.Sempre pessimista, fazer o quê?


A vida, de repente, mudou a rotina da cidade, e o barquinho, antes no ancoradouro, se posicionou ao largo. Afastou-se para analisar melhor o novo movimento da cidade, sem, porém, perdê-la de vista. Resquícios de uma longa  convivência...Dificuldade de ruptura brusca...Tentativa de adaptação à postura diferente.


Certa (o)? Errada (o)? Não cabe julgamento. Imposição, porém, é substantivo feminino que significa OBRIGAR. A definição é auto-explicativa, economizemos, portanto, palavras.


A âncora do barquinho, porém, já causa inquietação em seu interior. Imobiliza, e a inércia, com o tempo, se mostrando ineficaz,  aumenta a distância entre o barquinho e a cidade. A maré entre eles se torna, de repente, revolta, e produz ondas de insatisfação. O casco adquire crostas, por sua imobilidade.


O tempo é um remédio em que cada segundo funciona  como gotas balsâmicas e cicatrizantes. Em certos casos, porém, como intolerância, teimosia, radicalismo e intransigência, são placebos. Não surtem efeito nenhum.


É...O velho barquinho precisa se movimentar. Não adianta continuar ao largo, pois o movimento das marés acabará causando prejuízos a sua estrutura. Convém seguir à procura de novos horizontes, pois o tempo, senhor da razão, também cobra pedágio à medida que a ampulheta desloca a areia para sua parte inferior. 


O mundo, em sua vastidão, engloba outras cidades, outras luzes, outros segredos...Existem mais ancoradouros entre a costa e o horizonte do que supõe a nossa vã filosofia. O mar é tão imenso que seus mistérios nunca serão completamente desvendados. Completamente, eu disse...


É tempo, então, de se fazer outro destino.


Levantar âncoras!!!!!!


Em busca desses segredos...



sexta-feira, 28 de junho de 2013

A MOCHILA




Desânimo...

De repente o caminho trilhado teve a paisagem transformada diante dos olhos. O visual paradisíaco vislumbrado para além do horizonte deu lugar a um cenário ermo, desértico, sem vegetação. 


A estrada antes asfaltada, bem sinalizada e margeada por plantações  que emolduravam a viagem agora é um caminho tortuoso de terra batida, esburacado,  difícil de ser vencido. Qualquer mudança de clima enlameia e torna mais penoso ainda vencê-lo.



Não se pode reclamar. A mudança de rumo foi tomada pelas próprias pernas. Ninguém o conduziu. Seus erros o levaram a ele.



Agora resta continuar a viagem. O que antes era prazer se transformou em penosa caminhada. O cansaço é multiplicado, pois a falta de vontade pesa sobre os ombros. 


E sobre a alma.


Mas resta o fardo, a mochila com a qual você iniciou a caminhada.



Durante a jornada envolvida em prazer, você nem a percebia, não sentia necessidade de abri-la.


Pois agora é melhor que lance mão de sua bagagem. Somente nela encontrará forças para vencer o resultado das escolhas.


Abra-a. 


Pegue inicialmente a Força. Vai precisar muito. Com ela você poderá lutar contra o arrependimento. Algumas ações o fizeram mudar de rumo. Use-a, porém, para seguir em frente. Não olhe para trás. 


Quando se sentir exaurido, pegue a Fé. Ela serve para recarregar as energias e orientar sua direção. Sem ela você não consegue nem carregar o peso do próprio corpo, imagine o fardo das más escolhas.


E quando seus pés doerem, seu peito reclamar das vicissitudes da vida e sua cabeça doer a dor do desânimo, abra a mochila e pegue a Perseverança. Deve estar intacta, pois quase ninguém a usa, e você deve fazer parte dessa maioria.


Dói...Desanima...As forças  somem. As perspectivas desaparecem. Mas continue caminhando. 


Use sua mochila. Todos a temos, mas esquecemos que somente com ela poderemos vencer a caminhada.



E nos momentos de desespero, lembre que esse caminho tão diferente daquele que você imaginou para si talvez seja um atalho que Ele colocou em sua jornada.



E atalhos diminuiem jornadas.



Afinal...Ele sabe o que faz. E quer sempre o melhor para Seus filhos.



Caminhe...


terça-feira, 21 de maio de 2013

BRINCANDO DE ¨ NÃO TÔ NEM AÍ ¨.





No quarto escuro o corpo inerte finge que vê tv.



O relógio passou da marca que limita o dia, delimita a noite.


Mais um ciclo cumprido no quarto escuro.


O pensamento, senhor de nós, autônomo, vontade própria, não cabe dentro do quarto escuro, espaço concreto  impotente para encurralar a abstração. 


Divaga, solto, longe de onde nos encontramos fisicamente.


Vai e volta, quando, ele sabe, a vontade era ficar  onde teima em ir.


Vontade...


Nem sempre ela determina, quase sempre ela nada significa diante do que temos que cumprir, acatar, aquiescer, aceitar.


Ele se esvai e voltamos a ter a realidade conduzindo a vida.


Ela é apenas palavra, impotente sensação que dá e passa.


Dito popular é experiência que alguém vivenciou e eternizou em lei. 


No quarto escuro o corpo inerte finge que vê tv.


Brincando de ¨ não tô nem aí ¨.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

NÃO EXISTE NANO - SAUDADE

 
 
 
 
 
 
 
 
Não é um adeus, longe disso. Apenas um até breve.
 
E breve será o retorno.
 
A contagem pelo gregoriano deve ser bem digerida. Um ano... Passa rápido.
 
Difícil é gerenciar os segundos que formam os minutos, dias, semanas, meses que compõem o calendário folheado pela mente a cada momento.
 
Porque, esses, são computados pelo coração. E aí... Entra  o sentimento.
 
Sentimento quintuplicado por um órgão que bate dentro do peito de mãe. E mãe dispensa, obrigado, consolo, paparicos, afetuosidade quando se trata de preencher o vazio que fica na ausência da prole.
 
Pai também, mas é diferente. Nascemos para prover, apoiar, orientar, impulsionar para a frente e para o alto a potencialidade latente dos herdeiros.
 
Pelo menos é o que tentamos demonstrar no dia-a-dia marcado pelos ponteiros do relógio.
 
Mostrar para nós e para os que nos cercam uma indiferença estudada ( eu que o diga ), pois sentimento de perda, ausência, o que for, é exclusividade feminina. Então, parceiro, esconda as lágrimas e limite-se a debulhá-las na solidão da intimidade.
 
E a ausência, culpa exclusiva da competência acadêmica precoce, deve e vai ser dividida entre todos que viram o crescimento daquele potencial. Partilharam as etapas vitoriosas e agora também dividirão com os mais próximos a dor da distância.
 
Vai lá, cara, com seus inseparáveis ¨dicionários¨ ,  sua sede de saber, seu foco, sua natural e lúdica aptidão para superar obstáculos.
 
Vamos ficar por aqui curtindo a certeza de que o quebra-cabeça dessa etapa da vida vai ser montado com surpreendente facilidade pelos neurônios privilegiados que compõem a estrutura de seu cérebro.
 
Estaremos aqui, observando a passagem da vida sem a sua presença, confortados pela magnitude da empreitada.
 
Viver é vivenciar escolhas.
 
Volta logo, pô. 
 
Afinal, ainda não existe nano-saudade. 
 
 
 
 
 
 
 
 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

CHUVA



Chuva...


O barulho no vidro da janela desperta pensamentos. A água desce suave, ritmada, quase brisa ... garoa .

Chuva...


Se leve, é bálsamo, vai molhar raízes que cortarão o solo em busca de luz . É vida .

Se forte, provocará enchentes, avalanches, catástrofes. É morte.

Seu desprendimento do céu determinará quão boa ou má sua presença em nossa vida.

Chuva...


Se leve, desperta brincadeiras, alegria. Banho de chuva é passaporte para a infância, despreocupação, folia. É felicidade pueril.

Se forte, atiça preocupações, estado de vigília, sirenes a tocar. Caminho para a tragédia. É  arma letal.

Chuva...


Sua intensidade é análoga ao amor, sentimento tão sujeito às intempéries, tão igual a ela, a chuva.

Ou o amor não parece tempestade quando se é sentido forte, intenso, pleno ?

Sentimento sentido  qual água descendo ladeira, avalanche levando tudo de roldão.

Ou o amor não parece garoa quando se é sentido doce, tão intenso quanto o outro, mas calmo, leve... E, por ser tão suave, muito mais penetrante ?  

Chuva...


Tal qual a vida , se intensa traz consequências quase sempre trágicas. Intensidade, em ambos os casos, é prejudicial.

Mas se leve, fraca, é para ser curtida devagar, dolentemente, gostosamente.

Chuva...


Forte preocupa, inquieta , acende alerta.

Fraca acalma, aconchega, aquieta.


Chuva...



 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

SAUDADE : MEDIDA DE DISTÂNCIA




Quando você estiver pensando em alguém muito querido é porque a distância começou a interferir  em seu relacionamento com essa pessoa .

Você está sentindo aquilo cujo significado e palavra só se encontram na língua portuguesa .

Esse sentimento chama-se SAUDADE .

Saudade ... Sentimento que aflora quando sentimos falta da companhia que originou o sentir .

Sentimento que define o grau de intimidade entre dois seres .

Se objeto do amor que une dois  em um , a urgência do contato faz com que a saudade , prima-irmã do sofrimento, nos transporte a uma dimensão em que a ausência do outro não interfere nos sentidos . 

Ela , a saudade , começa a apertar o peito tão logo a imagem se materializa em nosso subconsciente . E eriça a sensação de olfato , tato , visão , audição ...

Como o cheiro de seu perfume nas narinas , se está tão longe o objeto de tamanha dor  de ausência ?  E essa sensação de ter sua pele em meus dedos , sua imagem em minha retina , tão viva quanto se à minha frente estivesse ? E a voz , tão nítida , apesar da distância ?

Saudade...

Longe o amigo , a lembrança nos faz reviver momentos passados juntos . Mais intensos do que  se perto estivesse . Porque são vividos com a força  da falta de presença física .

Ferramentas da modernidade amenizam a ausência : redes sociais  , Skype , o velho e bom telefone .

Paliativos que não substituem , mas  diminuem a distância .

Distância geográfica que separa corpos físicos , mas aproximam espíritos quando o sentimento supera tais barreiras .

A falta de comunicação nas datas festivas não é criticada quando a gente conhece o tamanho do sentimento que nos une ao ausente . 

A gente sabe que se as felicitações não vieram é porque algo impeditivo aconteceu . Sente as vibrações mais do que se palavras ditas  viessem aos ouvidos , ou palavras escritas  se apresentassem aos olhos .

Se perto fisicamente , mas longe afetivamente , a distância , aí sim , parece maior .

Os obstáculos do convívio difícil são maiores do que os da Natureza . Distância-mágoa é abismo que nenhuma ponte supera .

E essa saudade dói mais  que a imposta por  obstáculos concretos .

Saudade é termômetro que mede relacionamentos . Grau de intimidade , tamanho de afetividade .

Saudade é medida inversamente proporcional à distância entre dois seres .

Saudade é bom , por confirmar  que o outro, mesmo ausente  , vive dentro de nós  . E , de alguma maneira , é importante em nossas vidas .


PS : Àqueles que enviaram felicitações pelo três de maio . E aos que pensaram em enviar mas , por motivos vários , não o fizeram . O simples pensamento fez com que elas chegassem . Obrigado .

quinta-feira, 19 de abril de 2012

COMPANHEIROS NA SOLIDÃO




Ricardo e Marcela formam um casal bonito . Eles são casados há mais de vinte anos .

 

Da união nasceram filhos . Filhos que a vida já levou , cada um para o seu lado .

 

A menina cresceu , e , ordem natural das coisas , encontrou seu outro lado da moeda e juntou sua vida a dele . Casaram e já se estabeleceram em outro endereço .

 

O rapaz , esse daria uma crônica exclusiva . Enveredou para o lado obscuro , aquele que , inadvertidamente , dizem que não tem volta .

 

É dependente químico ...  E seus pais são dependentes dele . Como todo pai nessa situação .

 

Neste momento se encontra em tratamento , em outro estado .

 

Por uma série de motivos , Ricardo e Marcela já não se comportavam como um casal tradicional .  A vida tratou de separar suas vidas .

 

Vivem no mesmo CEP , habitam a mesma casa , mas não compartilham da presença um do outro .

 

Vivem , não convivem .

 

Ambos trabalham , e só coabitam o ambiente à noite .

 

À mesa do jantar , trivialidades . Depois , Ricardo elege como aliado o controle remoto da tv , enquanto Marcela  convida para a cama seus companheiros noturnos , os livros . Até que o sono os una sob o edredon . Sem contato físico .

 

O problema do filho , em vez  de aproximá-los , colaborou para que o abismo entre eles aumentasse .

 

Não houve acusações mútuas , ninguém se cobrou o porquê da opção do filho , mas , sozinhos e impotentes , tentaram , cada um a seu modo , entender a trapaça que a vida lhes impôs .

 

Tomaram as providências cabíveis e , desde então , lutam a luta insana que a situação exige . Internações , tratamentos , fugas , recaídas , internações... E a distância entre eles aumentando .

 

São amáveis um com o outro... Mas não se amam . Ou acham que não se amam mais...

 

O amor , tal qual o clima , também tem suas estações  . Explode em luminosa paixão  como o  verão ,  apresenta sua face carrancuda  no inverno ,  mostra sua beleza  através das flores da primavera , e se esconde  , como numa  hibernação outonal . Hiberna , mas está lá, escondido .

 

Ricardo e Marcela , com tantos percalços , tantas contrariedades , tantas provas , talvez não estejam entendendo os códigos da vida . E se separam , ao invés de se unir . Nesses casos dois são um e um é nada .

 

Infelizmente , Ricardo e Marcela não são raridade nesta estrada chamada vida .

 

São companheiros na solidão .