Ao largo, o barquinho permanece ancorado em águas calmas. Praticamente imóvel, soçobrando ao sabor do balanço indolente do mar.
Parece aguardar a definição dos acontecimentos, a confecção da carta de navegação definindo sua nova missão no oceano da vida.
Ao longe, em terra firme, as luzes da cidade cintilam e piscam, engano produzido pela distância dos olhos humanos à luminosidade das lâmpadas que produzem tal efeito.
Pisca-pisca que define bem a rotina que vivemos nesse universo. Os momentos felizes reluzem numa claridade brilhante, querendo mostrar a todos os sorrisos de quem os vive. E a escuridão da infelicidade esconde os semblantes fechados de quem não tem motivos para mostrá-lo.
Cidade em cujo ancoradouro o barquinho permaneceu durante bons anos, partilhando mais luz que névoa, mais sol que chuva, bem mais sorrisos abertos que rostos vincados por músculos retesados pela contrariedade.
Mas o copo, embora com água milimetricamente colocada na metade de seu interior, é analisado como meio vazio. Por mais que se explique que está meio cheio...Não adianta...Questão de ponto de vista.Sempre pessimista, fazer o quê?
A vida, de repente, mudou a rotina da cidade, e o barquinho, antes no ancoradouro, se posicionou ao largo. Afastou-se para analisar melhor o novo movimento da cidade, sem, porém, perdê-la de vista. Resquícios de uma longa convivência...Dificuldade de ruptura brusca...Tentativa de adaptação à postura diferente.
Certa (o)? Errada (o)? Não cabe julgamento. Imposição, porém, é substantivo feminino que significa OBRIGAR. A definição é auto-explicativa, economizemos, portanto, palavras.
A âncora do barquinho, porém, já causa inquietação em seu interior. Imobiliza, e a inércia, com o tempo, se mostrando ineficaz, aumenta a distância entre o barquinho e a cidade. A maré entre eles se torna, de repente, revolta, e produz ondas de insatisfação. O casco adquire crostas, por sua imobilidade.
O tempo é um remédio em que cada segundo funciona como gotas balsâmicas e cicatrizantes. Em certos casos, porém, como intolerância, teimosia, radicalismo e intransigência, são placebos. Não surtem efeito nenhum.
É...O velho barquinho precisa se movimentar. Não adianta continuar ao largo, pois o movimento das marés acabará causando prejuízos a sua estrutura. Convém seguir à procura de novos horizontes, pois o tempo, senhor da razão, também cobra pedágio à medida que a ampulheta desloca a areia para sua parte inferior.
O mundo, em sua vastidão, engloba outras cidades, outras luzes, outros segredos...Existem mais ancoradouros entre a costa e o horizonte do que supõe a nossa vã filosofia. O mar é tão imenso que seus mistérios nunca serão completamente desvendados. Completamente, eu disse...
É tempo, então, de se fazer outro destino.
Levantar âncoras!!!!!!
Em busca desses segredos...
